Maestro Jorge Antunes

Maestro Jorge Antunes:
"A vida imita a arte. Por isso eu faço música engajada politicamente, em busca da justiça social."

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O ativismo político na música erudita




O ativismo político na música erudita
Jorge Antunes
Maestro, compositor, membro da Academia Brasileira de Música,
Pesquisador Sênior da UnB, Pesquisador A do CNPq


Fonte: Revista Continente, edição 139, julho de 2012

O rap surgiu na Jamaica na década de 1960, foi levado para os Estados Unidos dez anos depois e, em seguida, se espalhou pelo mundo. A burguesia ficou apavorada. As letras da nova manifestação artística falavam das dificuldades da vida dos habitantes de bairros pobres. O protesto social, a irreverência e a pregação da violência chegaram a amedrontar os donos do poder.
Mas o poder de fogo do rap começou a cair quando, na década de 1990, o gênero despertou o interesse da indústria fonográfica. Hoje, completamente recuperado, tornou-se manifestação comercial e foi absorvido pelo sistema. Dessa forma, as falas ritmadas do MC já não assustam a ninguém. Tudo se tornou banal, comercial e bom para dançar. Não são apenas os jovens pobres que dançam. As dondocas e as patricinhas também entram na onda. O rap de protesto e o funk se fazem presentes até mesmo nas novelas da TV Globo.
Platão, em seu programa ético-musical da República, estudou as reações emotivas da massa popular. Jean-Jacques Rousseau, no século 18, detalhou alguns aspectos do fenômeno, lembrando que o intervalo de terça maior excita o sentimento de alegria, podendo chegar a imprimir ideias de furor. A terça menor, ao contrário, leva as massas à tristeza, despertando ternura e suavidade. Não é à toa que todos os hinos nacionais, além de usarem ritmo marcial, são escritos em modo maior. Observa-se, por outro lado, que quase todos os cantos religiosos e fúnebres são em modo menor. As reflexões de Platão e Rousseau se juntam a muitas outras que se seguiram, para demonstrarmos o poder de fogo que a música tem para influir nos destinos do homem e para formar mentalidades. Sou daqueles que acreditam que a vida imita a arte.
Em 1966, quando a ditadura militar reprimia violentamente as manifestações estudantis na Cinelândia, no Rio de Janeiro, escrevi uma obra para orquestra de cordas e fita magnética intitulada Dissolução. Como eu já estudava Física, todo mundo pensava que o título de minha peça tinha conotação extra-musical com algo de científico, de Química: a “dissolução” de alguma substância em laboratório. Mas, na verdade, a conotação era política e de contestação. Na obra tento descrever, com sons, a dissolução, feita pela polícia, de uma manifestação estudantil na rua. Na fita, além de sons eletrônicos, uso ruídos dramáticos de vidraças quebradas.
Naquela época não era fácil se fazer música engajada politicamente. Eu conseguia fazer, mas sempre de modo velado, disfarçado. A censura e a perseguição caiam sempre sobre qualquer obra de arte que insinuasse, em seu conteúdo ou em seu título, algo referente às questões sociais e políticas. Os autores de obras daquele tipo, então consideradas subversivas, passavam a ser perseguidos pelo donos do poder e até mesmo discriminados pelos próprios colegas artistas. Quem era amigo de um subversivo, corria risco de também ser considerado subversivo.
Hoje, os historiadores são sempre limitados quando analisam a censura praticada contra a produção cultural na época do regime militar. Eles se atêm ao estudo da repressão sofrida pela imprensa, pela literatura e pela música popular. Desconhecem, totalmente, a censura que foi imposta, pelo regime militar, à música erudita brasileira.
Em abril de 1964 minha canção Cabra da Peste, escrita para voz de barítono e piano, foi censurada pela direção da Rádio MEC do Rio de Janeiro. Para que fosse tocada no programa Jovens Compositores do Brasil, produzido por Dieter Lazarus, fui convidado a fazer nova gravação nos estúdios da rádio, desde que mudasse a letra da música.
Não faltaram, no passado, histórias de compositores brasileiros, na área da música erudita, que viveram uma fase de ativismo político através da música. Cláudio Santoro compôs, em 1953, sua Quinta Sinfonia, também conhecida como Sinfonia da Paz, com texto da poetisa comunista Antonieta Dias de Moraes. Gilberto Mendes, que à época estudava com Santoro, também escreveu canções engajadas politicamente usando poemas da mesma autora. Da mesma época data a obra Canto do Soldado Morto, de Eunice Katunda, com texto do poeta comunista Rossini Camargo Guarnieri. Por volta de 1973 o compositor paulista Willy Corrêa de Oliveira passou a compor unicamente obras musicais com fins de doutrinação política, militando junto às Comunidades Eclesiais de Base. Mas essa postura foi abandonada alguns anos depois.
Esses exemplos correspondem a fatos esporádicos e efêmeros, ocorridos circunstancialmente nas vidas daqueles compositores. Alguns deles, logo após aquelas experiências, voltaram a fazer arte pela arte. Outros chegaram até mesmo a virar casaca e condenar aquelas suas próprias posições do passado. Esse foi o caso, por exemplo, de Claudio Santoro. Em 1979, num debate realizado durante a Bienal de Música Contemporânea Brasileira, Santoro declarou que renegava todo aquele passado de engajamento político e que se arrependia de ter defendido ideias de esquerda e de tê-las embutido em algumas obras.
Assim, são raros, no Brasil, casos de compositores de música erudita que abraçaram e nunca mais abandonaram o ativismo político por meio da música, tal como aconteceu em outros países. Podemos citar, como exemplos dessas exceções: o alemão Hanns Eisler, o inglês Cornelius Cardew, o italiano Luigi Nono, o chileno Sergio Ortega, o italiano Luca Lombardi, o austríaco Wilhelm Zobl, o grego Thanos Mikroutsikos e o norte-americano Frederick Rzewski.
Intelectuais sempre tiveram, e continuam a ter, enorme responsabilidade com relação ao presente e ao futuro da humanidade. São eles os que, detentores de credibilidade, conseguem tribunas e espaços para fazer eco às suas convicções políticas. Por essa razão acredito ser obrigação do compositor não se encerrar em uma torre de marfim. O compositor que se tranca em torre de marfim é um compositor criminoso.
A música popular, mesmo aquela de protesto, sempre foi rapidamente adotada como mercadoria pela indústria fonográfica. O rap e o funk também seguiram a mesma trajetória. Mensagens políticas construídas para a venda, não convencem a ninguém.
A música erudita moderna e de vanguarda é a única vertente musical que resta, ainda hoje, não recuperada pelo sistema. Assim, ela passa a ser, ou a continuar a ser, o único suporte capaz de dar credibilidade a mensagens extra-artísticas de cunho social ou político.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Ao buzinar, não confunda Jericó com jerico





Jorge Antunes

Por favor, não confunda Jericó com jerico. Hoje vamos pegar em armas, nossas buzinas, mas estejamos certos de que muitos jericos ainda continuarão a falar em nosso nome, dizendo nos representar. Hoje não é 11 de setembro: é um simples 11 de julho. O foco de nossas trombetas, hoje, é um só: Torres. Mas a vez dos outros chegará.
Não estaremos inovando, hoje ao meio-dia, quando em torno do Congresso Nacional soarmos nossas trombetas. Fizemos isso em 1984 quando demos início à derrubada das muralhas da ditadura. Mas também ali, há 28 anos, não estávamos inovando. O povo já agia dessa forma há mais de 3 mil anos. Na famosa batalha de Jericó, nos idos do século 13 a.C., trombetas –muitas delas– se ouviram. A população escutou estrondoso e mágico som. Resultado: as muralhas ruíram.
No Livro de Josué encontramos a narração dos fatos: "Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas. Tendo ouvido o povo o som das trombetas e levantado grande grito, ruíram as muralhas, e o povo subiu à cidade, cada qual em frente de si, e a tomaram.”
Nossa ação, embora aguerrida, é poética, pacífica e musical. Nos tempos de Josué o bicho pegava feio: “Tudo quanto na cidade havia destruíram totalmente a fio de espada, tanto homens como mulheres, tanto meninos como velhos, também bois, ovelhas e jericos.” (Josué 6:20-21).
Jerico é um dos nomes dados ao jumento, o conhecido animal mamífero perissodáctilo (Equus asinus), que recebe também o nome de asno. Ele é facilmente domesticável, muito difundido no mundo e utilizado desde tempos imemoriais como animal de tração e carga. Interesses escusos, externos a seu habitat, os domesticam por meio de um alimento chamado propina. Esta palavrinha tão simpática vem do Latim: propino, as, avi, atum, are. Ela significa dádiva, gorjeta, gratificação. Mas etimologicamente quer dizer “dar a beber”. Em outras palavras, o estudo etimológico nos leva à compreensão do fenômeno através do qual o suor e o sangue do povo é bebido, sorvido com sofreguidão pelos jericos.
Jericos são usados para tração e carga. Servem para realizarem deslocamentos importantes. Caixas e malas cheias de denaro, colocadas à disposição desses asnos, são deslocadas, por mais pesadas que sejam, para lugares distantes e inatingíveis. A força do animal é grande. Jericos são usados para transporte de cargas. Empresários, empreiteiros e outros profissionais, resolvem seus problemas de carga tributária com a ajuda dos asnos. Algumas vezes outras classes se sentem prejudicadas. Mas os jericos voltam à carga. Servem àqueles cujas cargas horárias são livres, não precisando trabalharem muito.
Jericó é outra coisa. É uma cidade que tem mais de 9 mil anos. Na Bíblia hebraica ela está presente na descrição do encontro da Terra Prometida: "Então, subiu Moisés das campinas de Moabe ao monte Nebo, ao cimo de Pisga, que está defronte de Jericó; e o Senhor lhe mostrou toda a terra de Gileade até Dã." (Deuteronômio 34:1).
Jericó é também referência importante no Novo Testamento: em Mateus, em Marcos, em Lucas e na Epístola aos Hebreus. A cidade está situada às margens do rio Jordão, a aproximadamente 27 km de Jerusalém. É conhecida como o lugar do retorno dos escravos, liderados por Josué, o sucessor de Moisés. Ou seja, foi uma espécie de quilombo. O povo pobre, perseguido e explorado ali acorria em busca de trabalho, liberdade, cidadania e felicidade.
Aqui também vivemos fenômeno semelhante, quando o povo pobre trabalhador, no final dos anos 1950, aqui acorreu em busca da construção da terra prometida. O primeiro assentamento permanente de Jericó foi construído próximo a Ein as-Sultan, entre 8000 e 7000 a.C. Vários assentamentos foram construídos em seguida. Evidentemente, cidades-satélites surgiriam.
Dominadores de Jericó, ao longo da História, foram vários: califados, dinastias, cruzados. Estes últimos reconstruíram mosteiros e igrejas novas: igrejinhas. Os cruzados, na verdade, determinaram a desgraça do povo. Fenômeno parecido com a catástrofe, aqui, provocada pelos Planos Cruzados.
Tal como aqui, em Jericó houve golpes militares. O Livro de Jeremias descreve o fim do rei da Judéia, Zedequias, quando ele foi derrubado em Jericó: "Mas o exército dos caldeus os perseguiu e alcançou a Zedequias nas campinas de Jericó; eles o prenderam e o fizeram subir a Ribla, na terra de Hamate, a Nabucodonosor, rei da Babilônia, que lhe pronunciou a sentença." (Jeremias 39:5).
Na parábola do Bom Samaritano Jesus faz menção a um certo homem que estava a caminho de Jericó. Mas é preciso não confundir um certo homem com um homem certo. “Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de bandidos que o espancaram, deixando-o meio morto. ... Juízes e autoridades deixaram-no de lado. Mas um samaritano deitou azeite e vinho em suas feridas”.
Jericó foi desde o início um centro administrativo. Foi um estado particular para Alexandre o Grande. Depois veio a ser dominada por generais que construíram alguns fortes. Cleópatra arrendou Jericó para Heródes. Ele supervisionou a construção do hipódromo-teatro (Tel es-Samrat) para divertir seus convidados. Algo parecido com o que acontece em Brasília com o Mané Garrincha.
Às trombetas! O Livro de Josué nos ensina. Torres, muralhas, corruptos, jericos, não se sustentarão eternamente se bem afinarmos os decibéis de nossas buzinas.

domingo, 8 de julho de 2012


COM NOSSAS BUZINAS DERRUBAREMOS TORRES


CAAAAAA . . . . . . . . . . . SSA

Soneto octossílabo das buzinas


Jorge Antunes


Brasília tem sons de quietude,

a gente em silêncio se afina.

A paz é uma nossa virtude:

vivemos aqui sem buzina.


Porém, se nos falta a justiça,

se o mal do tirano domina,

mudanças verás na premissa:

a gente recorre à buzina.


Se nossa esperança é pó,

a luz-liberdade ilumina

o grito, a voz, o gogó.


Mudamos então a rotina,

tal como um clamor Jericó:

Buzina! Brasília, buzina!


O maestro Jorge Antunes, o autor da famosa Sinfonia das Buzinas de 1984, está chamando a população do DF para um baita buzinaço em torno do Congresso Nacional, para o dia 11, quarta-feira, exatamente ao meio-dia.

Lá dentro do Congresso estará acontecendo a votação secreta de cassação do senador Demóstenes Torres.
Aos congressistas que votarão secretamente, vamos mostrar o clamor ensurdecedor das buzinas que derrubarão Torres.
A música? Será simples.

Apenas uma sucessão de acordes, ritmicamente juntos:

CAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.....SSA

ou seja, um som longo seguido de um curto, um som longo seguido de um curto, um som longo seguido de um curto, um som longo seguido de um curto, um som longo seguido de um curto, um som longo seguido de um curto, um som longo seguido de um curto, um som longo seguido de um curto, …


Compareça!!!!!
Quarta, dia 11 de julho

meio-dia

em torno do Congresso Nacional

quinta-feira, 14 de junho de 2012

1º CONCURSO “PESADELOS DOS POVOS”




No dia 25 de agosto, Dia do Soldado, o guerreiro e maestro Jorge Antunes estará trazendo mais uma vez seus soldados à rua: desta vez no FLAAC 2012, encenando nova versão da ópera de rua do maestro brasiliense.
O Auto do Pesadelo de Dom Bosco teve que ser adaptado, para contemplar as temáticas do Festival Latino-Americano e Africano de Cultura.
Assim, agora nasce a ópera de rua Auto de um Pesadelo Bem Tosco, com dois novos personagens: um ligado à corrupção africana, outro ligado à corrupção latino-americana.
Antunes já escreveu as quadrinhas para as árias desses dois novos réus, que serão levados ao Tribunal da Idade Média. Eles farão companhia à Bruxa Ouvides Grito, aos Reverendos Junior Embromelli e Benedictus Dormindo, ao Gran Vizir Bem no Início Tavares e aos outros corruptos já conhecidos do público.
As letras das canções que serão cantadas pelos dois novos acusados estão reproduzidas abaixo.
Serão sorteados, entre os leitores que identificarem os dois novos personagens, três exemplares do DVD do Auto do Pesadelo de Dom Bosco.
Enviem seus palpites, com seus nomes e e-mails para: sistrum@sistrum.com.br



PERSONAGEM 1

Fui um grande presidente,
fui Dadá desde o batismo.
Só porque gostei de gente,
pratiquei canibalismo.

Fui chefe, ladrão burguês.
Não me acusem aqui não!
Neste país de vocês
tem muito chefe ladrão.

Quando eu mandava em Uganda
o meu povo tinha vez.
Aqui só tem propaganda
do governo de vocês.

Não vejo nada de novo
neste país tão fecundo.
Todo o dinheiro do povo
gastam na Copa do Mundo.



PERSONAGEM 2

Lá em Lima, como aqui,
disseram tanta maldade,
falaram que eu cometi
crimes contra a humanidade.

Eu sofri muito ataque
de invejosos e golpistas:
democratas de araque
que eram meros comunistas.

Pobre pueblo brasileño,
acredita na Justiça.
Pois saibam que aqui eu venho
porque tudo acaba em pizza!

Roubalheira pra chuchu
neste país eu já vi.
Pouco roubei no Peru,
muito roubam por aqui.

domingo, 27 de novembro de 2011

A organização da Falange Petista e suas espetaculares ações




Jorge Antunes


São 13h30 de sábado, dia 26 de novembro de 2011. Estou chegando à minha casa, vindo de Ceilândia, onde vivi a mais triste, surpreendente e amedrontadora experiência por que passei nos últimos 27 anos.

Situações semelhantes eu havia vivido nos anos de chumbo, no Rio de Janeiro, nas passeatas e manifestações estudantis na Cinelândia, na Av. Rio Branco e no Calabouço. Na época não havia o PT. O que existia eram outras forças violentas: a polícia da ditadura militar, seus pobres cavalos que tombavam sob nossas rolhas e bolas de gude e, também, as terríveis tropas à paisana do CCC (Comando de Caça aos Comunistas).

Um grupo grande de militantes do PSOL fomos, hoje pela manhã, panfletar em Ceilândia, na intenção de levar à população as denúncias que cada vez mais se multiplicam contra o governador Agnelo Queiroz. O povo, que não lê as revistas semanais e outros órgãos de imprensa, precisa conhecer todas as evidências que demonstram a podridão do atual governador do DF. Nosso panfleto, intitulado “Brasília não merece Agnelo”, traz texto que não acrescenta coisa alguma em tudo aquilo que está saindo na imprensa ultimamente. Apenas reproduz o que o poder judiciário investiga em segredo de justiça.

Não dá para duvidar da palavra dos denunciantes. Um deles, amicíssimo do governador, pode ser alcunhado de “amigo do peito” do denunciado. Este diz que quando dirigia a Anvisa emprestou 5.000 reais ao amigo, hoje acusador. O leitor sabe muito bem que não é fácil encontrar amigo ou parente que se disponha, sem mais nem menos, a emprestar aquela quantia. No mesmo dia, Agnelo autorizou a concessão do Certificado de Boas Práticas para a empresa União Química, em que trabalhava o amigo que depositava os cinco mil reais.

Graças ao panfleto do PSOL, o povo simples, afastado da mídia impressa, pode agora saber o que toda a pequena e a alta burguesias já sabem: o denunciante depositou 5.000 reais na conta bancária particular do Diretor Geral da Anvisa (Agnelo Queiroz), no mesmo dia em que Agnelo concedia o Certificado à empresa do amigo, hoje denunciante.

Nossa panfletagem prosseguia, mas de modo dramático, angustiante e perigoso. O povo na rua, os vendedores das lojas, os comerciários e comerciantes ficavam estatelados, boquiabertos, perplexos com as ações e a fúria não comum em nossa capital federal. Cerca de cem petistas, todos devidamente uniformizados com as camisas vermelhas de estrela no peito, avançavam sobre nós, nos cercavam, nos ameaçavam.

Logo chegaram policiais. Militantes petistas se aproximavam empurrando manifestantes do PSOL. Poucas vezes algum dos policiais interveio, afastando o raivoso petista. Os policiais tiveram aumentado seu efetivo num determinado momento. Não se percebia de onde surgiam. De início eram apenas três. De repente já eram uns sete ou oito. Começaram a caminhar cercando-nos, e, principalmente, ao Toninho que, tal como os outros seus companheiros, dava corajosamente continuidade à panfletagem.

Vejo que o PT criou, no Distrito Federal, sua Falange fascista. Seus métodos são exatamente iguais aos da Falange Espanhola que, vitoriosa na Guerra Civil, deu sustentação ao governo fascista do General Francisco Franco. A violência e o desrespeito à livre expressão tornaram-se práticas comuns dos petistas.

As agressões aumentavam. Gritos tentavam encobrir nossas falas dirigidas aos cidadãos na rua. Alguns petistas mais afoitos, agressivos, arrancavam maços de panfletos de nossas mãos. Corriam. Voltavam ameaçadores. Controlávamos surpreendentemente os nervos, as reações, pois víamos que a tropa falangista do PT fazia de tudo para que aceitássemos as provocações.

Depois de uns vinte minutos de caminhada, sempre cercados pelos membros da Falange, percebemos que nossos panfletos escasseavam. Maços e mais maços nos eram roubados de nossas mãos. Não satisfeitos, alguns petistas passavam a arrancar o panfleto das mãos da gente simples do povo que acabava de receber o papel. Um de nossos companheiros se afastou, rumo ao estacionamento, para buscar mais panfletos em seu carro. Péssima ideia. Foi seguido. Ao abrir o carro, foi agarrado por petistas enquanto outros se enfiavam no automóvel recolhendo pacotes com os panfletos.

Um dos policiais que nos seguiam e nos cercavam, retirou seu revólver do coldre, colocando-o à frente, no cinto da calça. Eu estava atrás dele e observei claramente sua ação disfarçada. Um cidadão, cabelos grisalhos, aproximou-se de mim e sugeriu que chamássemos a imprensa com urgência, pois –achava ele– os policiais estavam “do lado dos petistas”.

Deu para imaginar perfeitamente os momentos dramáticos que o deputado italiano Calvo Sotelo viveu em 1936, nos instantes que antecederam seu assassinato pela polícia que “protegia” a ele e aos outros manifestantes na rua.

A atitude estranha do policial, que mudou sua arma de lugar, me preocupou. Passei à frente dele e, ostensivamente, abaixei-me para ler seu nome na lapela do uniforme. Li: CB Railson. Fixei longamente meu olhar no distintivo. Já havia terminado de ler, mas insisti fingindo ainda não ter lido: enfim ele percebeu que eu lera e gravara seu nome em minha mente.

Seguimos, atravessando a rua em passos largos. Os petistas nos seguiam aos gritos, dirigindo-nos palavrões e acusações gratuitas. Os policiais também.

De repente senti meu pé esquerdo preso por outro pé. Não havia um juiz para apitar a falta. Catei cavaco. Olhei para trás e percebi que não havia qualquer pedra drummondiana no caminho. O obstáculo covarde era o pé do Cabo Railson. Ele olhou para o lado, fingindo nada ter acontecido. Intimidei-me e corri para a frente, ao lado do Toninho. Nessa altura meus próprios companheiros de partido, os mais musculosos, professores de Academia de ginástica, não permitiam que ninguém se aproximasse de Toninho.

A Falange estava ultra-organizada, pois a tropa não se restringia à centena de petistas com suas camisas vermelhas. Na rua, paralelamente ao desfile patético e dramático, um carro de som enorme vomitava, por seus altofalantes, os mais ignóbeis impropérios. A população reagia com comentários de espanto.

A implantação da ditadura de Franco, na Espanha, levou ao poder a Falange, que se transformou em um partido fascista, extremamente eficiente na repressão às oposições políticas. O fanatismo e o desespero do PT, hoje, estão levando o partido ao extremo do absurdo, aperfeiçoando seus métodos de repressão a seus opositores. Na ânsia de se perpetuar no poder, o PT inicialmente apelou para a hoje famosa fórmula do mensalão, comprando consciências, votos e dignidades.

A prática de agente corruptor foi escancarada, denunciada, e, agora, ela passa a ser método difícil de ser efetivado. A violência, agora, parece ser o único método de ação política para aqueles desesperados que se apegaram ao poder. Vislumbrando cenários possíveis para 2014, ano da Copa, ano das eleições para o governo do DF, os petistas querem a todo custo inventar uma tábua da salvação para Agnelo, pois não dispõem de outro nome para sua nominata. Ao buscar cega e desesperadamente a tábua de salvação, apelam agora para as tábuas, os paus, as pedras, os socos, os empurrões, o roubo, a estupidez total.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Documento entregue pelo PSOL-DF ao Presidente da Câmara Legislativa do DF


EXMO SR. PRESIDENTE DA CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL, DEPUTADO PATRÍCIO:


O PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE DO DISTRITO FEDERAL, partido político legalmente constituído e devidamente registrado no TSE, por seu representante legal, Sr. Antônio Carlos de Andrade, vem diante de Vossa Excelência expor e requerer o que se segue:

1. É com grande preocupação que vemos, mais uma vez, o Governo do Distrito Federal envolvido com corrupção nas manchetes dos jornais. Após o verdadeiro trauma vivenciado pela sociedade brasiliense no mandato anterior, as denúncias nesse Governo trazem de volta o sentimento de vergonha que queremos superar. A população do Distrito Federal merece uma resposta dos seus representantes.
2. A Câmara Legislativa pode e deve se manifestar. A competência de fiscalizar os atos do Poder Executivo, esculpida na Constituição Federal e reproduzida por simetria na Lei Orgânica do Distrito Federal não é mera faculdade, mas sim dever.
3. Necessário que seja frisado que a corrupção envolvendo o Programa Segundo Tempo não se restringe à esfera federal. Da mesma forma, a apuração não se restringe à atuação do Poder Judiciário. Há questões políticas que devem ser analisadas e fiscalizadas pelo Poder Legislativo. O esquema de corrupção deve ser apurado pela Câmara Legislativa do Distrito Federal com vistas a garantir que os recursos públicos sejam aplicados no Distrito Federal com base nos princípios constitucionais da impessoalidade, moralidade e eficiência, uma vez que desvio de recursos públicos, ainda que federais, prejudicarão diretamente a população do DF.
4. Faz-se necessário, portanto, ouvir os envolvidos, precipuamente o Sr. Orlando Silva, ex-ministro dos Esportes (que alegou ser de responsabilidade do atual Governador do Distrito Federal a contratação de duas ONG´s inseridas no esquema de desvio de recursos públicos); o Sr. João Dias Ferreira, representante de duas Organizações não governamentais envolvidas no esquema de corrupção do Programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte; o Sr. Geraldo Nascimento de Andrade, denunciante do esquema de desvio de recursos públicos; o Sr. Rafael Barbosa, atual Secretário de Saúde e ex-secretário nacional de Esporte (apontado como encarregado de autorizar os convênios); e o próprio Governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz.
5. Como forma de contribuição, encaminhamos anexa lista de convênios elaborada pelo Ministério do Esporte, na qual constam o número do convênio, a situação, data de início e término, o nome da entidade, seu endereço e a coordenação geral. No Distrito Federal há 75 convênios no Programa Segundo Tempo, com um total de supostos 231.408 beneficiados.
6. Assim, nos colocamos à disposição da Câmara Legislativas, ao tempo em que requeremos providências para que a nossa sociedade possa ter do Poder Público a garantia de que denúncias sejam investigadas e responsáveis sejam punidos.

Atenciosamente,

Antonio Carlos de Andrade
Presidente do PSOL
Distrito Federal

domingo, 23 de outubro de 2011

ANITA FALA POR MIM

Jorge Antunes

Diogo Ramalho me enviou e-mail cobrando-me novo artigo para O Miraculoso. Comecei a arquitetar, na cabeça, uma desculpa para a minha omissão. Ele, desde o início, conta com um texto meu a cada semana.
Eu precisava dizer a ele a verdade. Cheguei a rascunhar. A verdade é que estou sem motivação. Sem vontade de escrever textos em prosa. Tenho escrito poemas. Meus sentimentos andam abalados com os acontecimentos recentes. Quando isso acontece fico sem ganas de me estender em frases, frases e frases. Dou preferência à composição musical, à poesia, às imagens poéticas, à aliteração, ao jogo com as palavras, à concisão. As novas denúncias contra militantes e ex-militantes do PCdoB, que em nada me surpreendem, foram as primeiras causas de meu mutismo. A podridão grassa nos poderes constituídos e, quando me lembro de que quem está na cúpula dos comandos nacionais são canalhas indicados pelos canalhas eleitos pelo povo, me dá um desânimo total.
Palavras de nada têm servido. Gritos tampouco. Clamores tampouco. As marchas contra a corrupção foram recuperadas pela direita. Fico apavorado. Jovens que detestam partidos políticos começam a ser arrastados às ruas, para participar de marchas que passam a ser chamadas de “desfiles” e não mais de “passeatas”.
Na condição de sexagenário que teve a juventude alijada da vida nacional graças ao exílio, começo a pensar que tudo pode voltar. Os golpistas de 1964, poucos se lembram, não se diziam meros anticomunistas. Diziam-se também combatentes contra a corrupção. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu 400 mil pessoas, foi forte apoio da sociedade civil ao golpe militar.
As últimas gotas d’água, que abalaram minha verve em prosa, foram o assassinato bárbaro de Kadafi e o programa político do PCdoB na TV. A canalha oportunista, entreguista, antipovo e adesista do PCdoB, usou figuras heróicas brasileiras, na iconografia do programa, para tentar validar seu discurso falsamente socialista. Revoltou-me a utilização de fotos de Luiz Carlos Prestes e de Olga Benario, duas figuras máximas da luta socialista no Brasil.
Hoje, dia 21/10/2011, a professora Anita Leocádio Prestes, filha de Olga e Prestes, divulgou uma carta aberta à direção do PCdoB que diz, com fundamento e propriedade, do sentimento meu e de todos os verdadeiros socialistas brasileiros.
Transcrevo aqui a carta de Anita. O texto dela é o artigo que dou a O Miraculoso esta semana. Faço minhas as palavras de Anita.

Ao Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

Dirijo-me à direção do PCdoB para externar minha estranheza e minha indignação com a utilização indébita da imagem dos meus pais, Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, em Programa Eleitoral desse partido, transmitido pela TV na noite de ontem, dia 20 de outubro de 2011.
Não posso aceitar que se pretenda comprometer a trajetória revolucionária dos meus pais com a política atual do PCdoB, que, certamente, seria energicamente por eles repudiada. Cabe lembrar que, após a anistia de 1979 e o regresso de Luiz Carlos Prestes ao Brasil, durante os últimos dez anos de sua vida, ele denunciou repetidamente o oportunismo tanto do PCdoB quanto do PCB, caracterizando a política adotada por esses partidos como reformista e de traição da classe operária. Bastando consultar a imprensa dos anos 1980 para comprovar esta afirmação.
Por respeito à memória de Prestes e de Olga, o PCdoB deveria deixar de utilizar-se do inegável prestígio desses dois revolucionários comunistas junto a amplos setores do nosso povo, numa tentativa deplorável de impedir o desgaste, junto a opinião pública, de dirigentes desse partido acusados de possível envolvimento em atos de corrupção.
Atenciosamente,
Anita Leocádia Prestes

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

“COLORATUS”: novo CD de Jorge Antunes



A Academia Brasileira de Música acaba de lançar mais um CD em seu selo ABM Digital: COLORATUS, somente com obras de Jorge Antunes, escritas para orquestra, algumas incluindo coro e sons eletrônicos. O CD traz cinco composições escritas nas três últimas décadas do século XX, obras em que Antunes utilizou sua técnica cromofônica de composição. O título do CD, Coloratus, se refere justamente àquela técnica, em que o maestro Jorge Antunes trata os sons como se fossem cores. As gravações, de alta qualidade, foram feitas por diferentes orquestras, sob a regência do compositor: Orquestra Sinfônica Brasileira, Orchestre Philharmonique de Radio France, Nationaal Orkest van België e Orquestra de Câmara da Universidade de Brasília.
As cinco faixas do disco trazem as seguintes obras: ISOMERISM (1970), para orquestra de câmara; INTERVERTIGE (1974), para orquestra de câmara e eletrônica; CATÁSTROFE ULTRA-VIOLETA (1973), para coro masculino, orquestra e sons eletrônicos; CADENZA (1988), para violoncelo amplificado, orquestra de câmara e sons eletrônicos; RIMBAUDIANNISIA MCMXCV (1994), para coro infanto-juvenil, orquestra de câmara, luzes e máscaras.
As obras Catástrofe Ultra-Violeta e Isomerism foram gravadas em 1975 com a Orquestra Sinfônica Brasileira e integraram um LP em vinil de grande sucesso que logo se esgotou. A obra Isomerism foi a composição com que Antunes conquistou o Premio Angelicum di Milano de 1971, projetando o então jovem compositor em sua carreira europeia.
Preço do CD: R$ 25,00
Pedidos para: sistrum@sistrum.com.br

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Sábado (4 de junho) e domingo (5 de junho): próximas apresentações da Ópera de Rua
















4 de junho, sábado: SANTA MARIA, Praça atrás da Administração Regional- 16h00
5 de junho: GAMA, Praça em frente ao Espaço Cultural Itapoã, 16h30



domingo, 3 de abril de 2011

Concurso "PARCERIA ÓPERA DE RUA"

O maestro Jorge Antunes vai compor uma nova ópera de rua, desta vez no gênero de ficção científica. A história se passará em 2032, quando os EUA e seus aliados atacarão e invadirão o Brasil. O tema permitirá que o compositor use sons eletrônicos, além dos sons da Orquestra Panetônica com instrumentos tradicionais acústicos, dos solistas vocais e do Coro do Povo.
Ajude a montar a história, para elaboração do libreto.
As ideias acolhidas serão integradas ao enredo e os nomes de seus autores serão mencionados nos créditos das apresentações e na divulgação. Alem disso os autores das melhores ideias receberão, como prêmio, exemplares de CDs, DVDs e livros de Jorge Antunes.

Envie sugestões para:
ideias.para.nova.opera.de.rua@gmail.com

Antes de enviar suas ideias, participe da enquete ao lado, escolhendo uma das 10 opções.

Qual será, em sua opinião, o motivo alegado pelos yankees para a invasão?

1- Acabar com as armas de destruição em massa escondidas no Maracanã e na Feira de Caruaru.
2- Guerra preventiva contra as armas de destruição em missa do PSTU.
3- Proteger o povo quilombola ameaçado pelas empreiteiras e pela indústria farmacêutica.
4- Proteger a Amazônia ameaçada de extinção pelos bispos da Igreja Universal.
5- Proteger a estátua do beatle John Lenon erguida no câmpus da UnB, escondida pelo mato alto.
6- Proteger a água doce e fazer a transposição, para Washington, das nascentes do Pantanal.
7- Proteger os animais marinhos do mar profundo, ameaçados pela exploração do pré-sal.
8- Proteger a população civil ameaçada pela repressão do Coronel Ball Sonário.
9- Impor liberdade condicional aos corruptos, para não faltar suco dos laranjas no mercado.
10- Implantar bases militares e novos semáforos em Brasília para combater o anarcotráfego.

Siga Jorge Antunes no twitter:
http://twitter.com/jorgeantunes

Veja a nova mensagem política de Jorge Antunes em:
http://www.youtube.com/watch?v=Gk9DIEfvcaM